É crescente a recomendação do uso de testosterona em mulheres para tratar quadros de baixa libido e suposta deficiência hormonal. A Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML) alerta para equívocos e riscos relacionados ao tema, reafirmando que a prática clínica não está fundamentada em evidências científicas sólidas.
“A insuficiência de testosterona feminina não é uma condição clinicamente bem definida”, destaca Pedro Saddi, endocrinologista e patologista clínico, diretor da regional São Paulo – capital da SBPC/ML. Ele acrescenta que não há qualquer ponto de corte laboratorial que caracterize uma ‘deficiência de testosterona’ em mulheres, e a dosagem do hormônio não deve ser utilizada para justificar seu uso. “A indicação para dosagem de testosterona é restrita à investigação de hiperandrogenismo, ou seja, situações em que há suspeita de níveis elevados de androgênios, como na síndrome dos ovários policísticos”, explica.
De acordo com Saddi, o uso da testosterona em mulheres atualmente só encontra respaldo científico em um contexto muito específico: o tratamento do transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) em mulheres na pós-menopausa, após rigoroso diagnóstico clínico e exclusão de outras causas. “Mesmo nesse cenário, a prescrição requer cuidado, com monitoramento constante e uso de formulações seguras – algo que, no Brasil, ainda é limitado, pois não há produtos aprovados pela Anvisa para essa finalidade”, acrescenta.
Outro ponto crítico destacado pela SBPC/ML refere-se às limitações dos exames laboratoriais. “Os imunoensaios, amplamente utilizados no Brasil, não possuem acurácia suficiente para detectar pequenas variações nos baixos níveis fisiológicos de testosterona feminina. A espectrometria de massas é o padrão-ouro para essas medições, mas seu acesso ainda é restrito”, observa Saddi. Ele aponta que incluir notas interpretativas nos laudos pode ser uma medida útil para evitar interpretações equivocadas e medicalização indevida.
A testosterona, apesar de ser mais conhecida como hormônio masculino, também desempenha funções importantes no organismo feminino. No entanto, ao contrário do que muitos acreditam, os níveis hormonais de testosterona nas mulheres não sofrem uma queda abrupta na menopausa, como acontece com o estrogênio.
Trata-se de uma redução lenta e progressiva que começa por volta dos 30 anos e segue de maneira constante ao longo da vida. “Por isso, a ideia de ‘deficiência de testosterona’ exclusiva da menopausa não encontra respaldo científico e pode levar a diagnósticos e tratamentos equivocados”, reforça Saddi. A SBPC/ML salienta que a saúde sexual e o desejo feminino são fenômenos complexos, influenciados por múltiplos fatores emocionais, sociais, hormonais e psicológicos — o que exige uma abordagem médica integral e cautelosa.
Ele alerta ainda sobre os riscos do uso indiscriminado de testosterona fora das indicações reconhecidas, o que pode acarretar efeitos adversos sérios, como hirsutismo, acne, alterações metabólicas e cardiovasculares, entre outros. “O uso para fins estéticos ou de “rejuvenescimento” não tem respaldo científico e representa uma prática potencialmente danosa”, acrescenta.
Pedro Saddi também reforça a importância de distinguir claramente entre terapia reposição hormonal (TRH) — que envolve estrogênio e progesterona e possui benefícios bem documentados para tratar sintomas da menopausa — e o uso de testosterona. “A TRH é eficaz no manejo de sintomas como fogachos, ressecamento vaginal e prevenção da osteoporose, desde que bem indicada e monitorada, especialmente quando iniciada antes dos 60 anos e nos primeiros 10 anos após a menopausa”, completa o especialista.
Confira o posicionamento da SBPC/ML sobre o tema: Link
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