Sororidade

Ilustração: @priii_barbosa

Eu também não sabia o significado. E nem fui logo consultando o dicionário – como deveria –, porque era uma daquelas palavras que pelo contexto a gente acaba sabendo do que se trata e até se arrisca a usar de quando em vez.

Mas o que é mesmo “sororidade”?

Significa aliança, irmandade, companheirismo baseados em empatia, ética e dignidade. E sempre com o objetivo de alcançar um bem comum para as mulheres.   

Sóror vem do latim e significa “irmã”.  O masculino de sóror é frater, que significa “irmão”. Então, sororidade seria o feminino de fraternidade, palavra bem mais conhecida em nosso vocabulário? Sim e não?

“Sim”, porque, assim como fraternidade, sororidade nos remete aos ideais de reconhecimento, de compaixão e de igualdade. “Não”, porque não se explica verdadeiramente sororidade colocando-a como oposto de fraternidade.

A sororidade vai mais além, sem compreender espaços de segregação. Nem entende que um gênero deve ser superior ao outro. Traz-nos a consciência de que somos TODOS iguais em direitos e merecemos as mesmas oportunidades.

E não se trata de aliança apenas de mulheres, como alguns podem pensar. É espaço de exercício de igualdade pelos iguais e desiguais. É instância de empoderamento do gênero feminino, sim, mas onde há espaço para todos, sem que se tente fragilizá-los e subjugá-los em razão do sexo.

Segundo o Censo de 2010, 51% dos 190.755.799 habitantes de nosso país são mulheres.

Mas, ao mesmo tempo em que as mulheres são a maioria, é importante não esquecermos que elas integram o grupo das pessoas que tem mais desrespeitados os seus direitos humanos e experimentam uma longa história de “não reconhecimento” e de dominação. Também são mais vulneráveis à pobreza e mais discriminadas nas oportunidades de trabalho, como constatado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), que indica uma subutilização da mão de obra feminina, por razões culturais, sociais e até mesmo religiosas, que obrigam a mulher a permanecer em casa, com a responsabilidade dos cuidados e trabalhos domésticos, e sem tempo e nem espaço para se desenvolverem como profissionais e como cidadãs.

Ilustração: Erika Lourenço

E, mesmo quando trabalham, as mulheres ainda recebem os menores salários e estão sujeitas à famosa dupla jornada de trabalho, pois, ainda que sejam as provedoras, são socialmente responsabilizadas pelo trabalho doméstico não lucrativo (dicotomia entre “mulher cuidadora” e “homem provedor”). Muitas ainda padecem em decorrência da gravidez e do parto, além de correrem iminente risco de sofrerem violência até mesmo em seu próprio núcleo familiar, contraditoriamente o local onde deveriam encontrar aconchego e segurança.

Nos últimos anos, vimos uma forte onda movida pela sororidade reverberar pelas ruas de todo o país e do mundo, em razão da notícia do estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro – o cartão postal do Brasil. Como se não bastasse, a postura patriarcal de nossa sociedade de culpabilizar a vítima pelo crime também foi o estopim para a revolta de mulheres de todas as idades e de todos os lugares.

Indomáveis, saímos às ruas gritando, sem medo, as situações de violência de gênero que vivemos ou que presenciamos, e que estavam presas em nossas gargantas.

Não podemos mais admitir que uns tenham mais oportunidades do que outros, apenas em razão do sexo biológico. Não faz sentido que a maior parcela da população mundial, composta pelas mulheres, ainda viva sem experimentar os direitos e garantias mais fundamentais em sua plenitude, e sem o reconhecimento de sua participação política e de seu trabalho para a estruturação das famílias e da sociedade como um todo.

Cada vez mais, as mulheres se entendem e se apóiam, fortalecendo-se em diálogos francos e empáticos, desconstruindo as falsas verdades de que a violência de gênero é provocada por roupas de menos e corpos a mostra demais.  

Cada vez mais, olhamos nos olhos das outras e constatamos que essa história de que somos competitivas e que não construímos laços de amizade é um trote mal intencionado do sistema patriarcal para enfraquecer nossos elos.  

Vitória da sororidade! Luta para a qual TODOS e TODAS são bem-vindas, inclusive nossas irmãs lésbicas, homens trans, mulheres trans, travestis e homens que amam de verdade as mulheres. Bem-vindos, todos os que acreditam na liberdade de ser o que se é, e que acreditam que viver é bem mais do que querem nos permitir ousar pensar.

 

Por Rita Mendonça

Rita Mendonça é advogada, especialista em Educação em Direitos Humanos, Diversidade, Gestão de Políticas Públicas de Gênero e Raça, Participação Democrática, República e Movimentos Sociais. É Diretora Jurídica e de Diversidade da Associação Brasileira de Recursos Humanos – Seccional Alagoas (ABRHAL) e Superintendente de Direitos Humanos e Igualdade Racial do Estado de Alagoas.

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