A narrativa: “Náira tem muitas atividades”

Ou melhor…. Náira construiu repertório durante uma vida, e agora esse repertório transborda por diferentes linguagens. 

Arquitetura, Feng Shui, escrita e arte deixam de competir por protagonismo. São manifestações diferentes de uma mesma busca: compreender o invisível e dar-lhe forma. Por muito tempo, aprendemos a nos apresentar por aquilo que fazemos. 

Eu sou arquiteta. Eu sou artista plástica. Eu sou escritora. Eu estudo e aplico o Feng Shui. Mas uma vida não cabe em uma profissão. E talvez tenha levado muitos anos para eu compreender que nunca existiram caminhos separados.

A arquitetura me ensinou a olhar para o espaço, para a matéria, para a proporção e para aquilo que sustenta uma construção. O Feng Shui ampliou esse olhar e me ensinou a perceber também o que não se vê: direção, tempo, movimento, fluxo, transformação. A escrita me deu palavras para organizar pensamentos. E a arte me deu liberdade para transformar tudo isso em imagem. 

Hoje compreendo que minha verdadeira matéria-prima não é apenas o espaço, nem a aquarela, nem a palavra. É o conhecimento acumulado pela vida. Porque somos feitos de camadas. De tudo o que estudamos. Do que construímos. Do que perdemos. Do que encontramos. Das viagens que fizemos pelo mundo e daquelas, muito mais profundas, que fizemos dentro de nós mesmos.

E é justamente nesse território que nasceu esta série de aquarelas inspirada no universo do Rush. Encontrei em seu universo questões que também atravessaram minha própria trajetória: o tempo, a liberdade, o conhecimento, a transformação, os arquétipos, a transcendência e a permanente inquietação diante da existência. E deixei tudo aquilo que sou participando dessa criação. 

Escolhi trabalhar sobre um papel chinês extremamente fino e translúcido, conhecido como Asa de Cigarra. Um suporte quase etéreo. Frágil na aparência, exigente na execução. Sobre ele, trabalhei a aquarela em pincel seco e acrescentei manualmente a folha de ouro. E até os materiais começaram a falar. A fragilidade do papel. A água transformada em pigmento. A precisão do gesto. E o ouro permanecendo sobre o tempo. 

 

Cada obra tornou-se, assim, mais do que uma imagem. Tornou-se o encontro entre música, memória, filosofia, arquitetura, matéria e emoção. Talvez seja isso que mais me fascine na criação. Chega um momento da vida em que aquilo acumulado deixa de ser apenas conhecimento. Transborda. E quando transborda, pode se transformar em contribuição. 

Hoje não sinto necessidade de escolher entre ser arquiteta, artista, escritora ou pesquisadora dos movimentos invisíveis dos espaços. Eu sou a soma. Sou as conexões entre essas partes. Porque uma pessoa não é uma coisa só. Somos um universo inteiro de experiências procurando uma forma de expressão. 

Eu sou Náira Moser. E esta é a minha forma de transformar tudo aquilo que vivi, aprendi e percebi em criação. Talvez a arte seja exatamente isso: aquilo que a vida acumulou dentro de nós encontrando uma maneira de voltar ao mundo. 

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.