BREVE RELATO DE UM CORPO HIPERSENSÍVEL

O mundo não mudou, não parou e nem vai. Por mais difícil que seja, a vida continua seu fluxo, você podendo acompanhar como gostaria ou não.

São pensamentos como esse que me fazem repensar minhas ações e responsabilidades. Apesar dos pesares, o que eu consigo fazer, farei – dentro dos meus limites, usando a criatividade e honrando meus deveres.

Dito isso, tentarei dar um contexto a minha fala.

Eu amo aprender idiomas, conhecer novas culturas – mesmo nunca tendo saído do país, tenho várias amigas estrangeiras, amo/amava ouvir músicas (ultimamente, estou com dificuldades de conjugar os verbos, ainda presente ou será passado?), sempre trabalhei com design gráfico, estava aprendendo a ilustrar, felicíssima me movimentando, ido para a academia do prédio regularmente, praticando yoga em casa, treinando tênis de mesa e como eu disse no começo desse parágrafo, eu estava estudando 4 línguas – turco, francês, árabe e alemão. Já estudei LIBRAS, inglês, italiano e espanhol no colégio.

Minha mãe sempre me chamou de “antena parabólica”, sempre tive meus sentidos bem aguçados, mas, de uns 2 anos e meio pra cá, as coisas foram tomando proporções maiores.

Aqui não falarei em termos técnicos, nem sobre todos os meus sintomas, nem vou destrinchar a investigação neurológia que passei. 

O que quero trazer aqui é uma reflexão sobre o quão somos seres sociais, o trabalho do nosso corpo em nos manter aqui e como ainda podemos agir e nos manter ativos apesar dos pesares – claro que há casos e casos.

Aprendemos que nada, nem niguém pode nos tirar o que aprendemos, o que estudamos ao longo da vida, mas, aí, aparecem condições que não conhecemos e afetam nosso sistema nervoso, nosso corpo passa a não processar como antes, podendo até nos guiar para a reaprendizagem.

O mundo invisível da (hiper)sensibilidade é desafiador tanto para quem o sente como para quem tem que lidar com os portadores de condições assim. Temos que prever situações, ter um plano B pra quase tudo, parar o que está fazendo, se refugiar, deixar passar, se organizar, voltar pra vida normal. E isso, várias vezes por dia, com algo que está fora do nosso alcance.

Estou há mais ou menos 1 ano e 6 meses sem sair de casa. Passo a maior parte do tempo no quarto, que é mais isolado, pois, as crises consistem em queda do pescoço, não consigo sustentar o tronco, as penas falham, alteração na voz, dificuldade para abrir os olhos, muito cansaço – tanto do corpo, quanto de puxar o ar.

Eu faço a minha parte, recuo, faço os tratamentos, tento ter previsibilidade, mas, a vida lá fora continua acontecendo e ela é barulhenta. Então, mesmo assim continuo com as crises.

O escapamento de uma moto, a sirene da ambulância ou do carro da polícia ou bombeiro, uma buzina – de carro, moto ou VLT, crianças brincando – gritando, fogos, bombas (na época da copa), campainha, o interfone, uma furadeira, uma tampa de metal que cai, uma música…

Como eu amava trabalhar ouvindo músicas e hoje, não posso mais, comecei a ouvir professores dando aulas sobre assuntos que gosto – mas, se a fala for rápida, ou mais alta um pouquinho ou se movimentar, fico cansada e tendo algumas crisezinhas. Então, pra ter uma ideia, em algumas vezes, enquanto estou ouvindo, acontece ou alguma reforma em um vizinho ou barulho de helicóptero ou outro qualquer que seja, eu já em crise tenho que parar tudo o que eu estava fazendo, gostando e me recuperar.

Há situações que eu preciso sair do local que eu estou, então, a cada deslocamento são mais crises ainda. Sucessivas. Sendo me colocando em cadeira de rodas, o movimento, ou pegando em mim – o toque físico também desencadeia. O famoso “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”.

Não consigo assistir vídeos, televisão. Eu amava assistir jogos, infelizmente, nessa copa, não pude assistir nenhum. Tentei, mas, não deu certo. Os movimentos das câmeras, dos jogadores, a luz da televisão, os gritos, a euforia, entonação da voz dos locutores, vem tudo separado para mim e são estímulos bem fortes.

Sempre tive e agora também estou com algumas restrições alimentares, que assim me ajudam a diminuir alguns outros sintomas que tenho.

Como escrevi recentemente, estou vivendo “entre brechas e frestas. A mim não me cabe somente o existir”. Eu não sou a primeira, nem a última e nem a única a sofrer com hipersensibilidade sensorial. É uma questão real, que muita gente não imagina ou toma com um prejulgamento de que é “frescura”. 

Nosso corpo é incrível e ele nos protege de muita coisa, de muitos estímulos para que possamos sobreviver nesse mundo. Ele está trabalhando. Mas, em algumas pessoas, o filtro passa por alguns probleminhas e não funciona como o esperado.

Que relatos como esse meu nos sirvam de reflexão no nosso dia a dia. Sermos mais empáticos com as pessoas que nos rodeiam – mesmo as que não conhecemos. Somos seres sociáveis. E a hipersensibilidade acaba sendo a prova disso. O que alguém faz, mesmo longe, afeta um outro corpo.

Continuo acreditando na vida e em Deus. Tudo há um propósito.

Gostaria de deixar ainda alguns recados: agradeçam o corpo de vocês. Eu sou grata ao meu; sejam gratos e busquem o sonho de vocês, vá engatinhando, quando não puder correr. Vai ser uma experiência enriquecedora! Seja criativo e pense nas possibilidades existentes, vai haver bem mais de uma!

“O segredo é não correr atrás das borboletas. É cuidar do jardim para que elas venham até você.” 

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