INTERVALO

PARE POR UM INSTANTE 

Talvez tenhamos aprendido a reconhecer o crescimento apenas quando ele se torna visível. Mas alguns dos processos mais importantes da vida acontecem justamente quando nada parece se mover. Há um tempo entre a intenção e a forma. E talvez seja nele que a transformação realmente acontece.

O que acontece enquanto aparentemente nada acontece? 

Uma massa de pão precisa descansar para crescer. Durante algum tempo, aparentemente nada acontece. Não há esforço, velocidade ou movimento visível. Ainda assim, silenciosamente, a transformação está em curso. Descansar não interrompe o processo. Em certos processos, descansar é o processo. 

Existe uma antiga imagem chinesa que ajuda a compreender essa ideia. Uma das interpretações tradicionais do ideograma Chi (Qi) reúne a imagem do arroz e do vapor que se eleva. O que estava contido torna-se movimento, atravessa a matéria e se manifesta. Talvez a força dessa imagem esteja justamente aí: o invisível antecede o visível. 

Também encontramos algo semelhante na oração. Entre uma conta e outra do terço existe um pequeno intervalo. Um silêncio quase imperceptível. Para quem reza, talvez seja justamente ali, entre uma palavra e outra, que se abra o espaço íntimo da conexão da criação. 

A vida parece conhecer a importância dos intervalos. Nós é que talvez a tenhamos esquecido. Vivemos ocupando cada minuto, preenchendo cada silêncio e exigindo que todo movimento produza imediatamente algum resultado. Fazemos isso também com nossas casas. Preenchemos paredes, corredores, agendas e ambientes como se o vazio representasse ausência. 

No Feng Shui Clássico, porém, existe também um intervalo fundamental: o tempo da observação. 

Antes da bússola, antes do cálculo, antes de qualquer intervenção, o lugar precisa ser percebido. O mestre observa a paisagem, os acessos, as formas, os movimentos e a maneira como o Chi encontra aquele espaço. Ele não chega impondo uma resposta. Primeiro, escuta. 

Porque existem informações que o ambiente não entrega à pressa. Talvez prosperidade também tenha menos relação com acumular e mais com saber criar condições para que a vida possa acontecer. 

Uma casa precisa de movimento, mas precisa igualmente de respiro. A arquitetura precisa de matéria, mas também de vazio. 

E nós talvez precisemos reaprender algo que a natureza nunca esqueceu: há coisas que só crescem quando paramos de empurrá-las. 

PARA LEVAR COM VOCÊ 

Nem todo intervalo é ausência. Às vezes, é justamente no espaço entre uma coisa e outra que a vida encontra lugar para criar, se reorganizar, amadurecer e crescer. 

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