Aborto masculino: o abandono de um pai

Foto: Steven Van Loy - Unsplash

Gerar, segundo o dicionário, é dar existência; fazer nascer. Criar, pelo senso comum, é dar formação, educação, é fazer existir. Dizem ainda que a mãe descobre a maternidade, em todos os seus sentidos, ainda na gestação, mas que alguns pais somente quando o filho nasce. Mas, e aqueles que nem desfrutam da amplitude desse privilégio?

Aborto Masculino, ou um modo mais “sociável” de se dizer, abandono de paternidade, é tão corriqueiro no Brasil, que de acordo com o Senso Escolar (2011), mais de 5,5 milhões de brasileiros não tinham o nome do pai na certidão de nascimento –  em 2015, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 10 anos esse número aumentou em mais de 1 milhão – algo que por lei é um direito.

A história é tão comum, que é reconhecida facilmente em algum momento da vida. Seja na vizinha, com algum parente, sua mãe – já que não se priva como algo atual, e sim repassado como “normal” de algo que se instalou na nossa sociedade, quando a mulher tinha que assumir sozinha um filho – ou simplesmente, você.

Ninguém nasce sem pai, mas nasce. Ninguém tem só mãe, ou só madrinha, ou avós ou uma vizinha que cuida de você. Mas tem. Essa é a realidade das crianças que não tiveram (e até hoje continuam sem ter) a figura paterna. Não é necessário estar casado e formando uma família tradicional ao lado da mãe, mas sim ao lado do filho.

Ser mãe solo deixou de ser comum, e se tornou normal. Às vezes por escolha, outras pela falta de 20coragem do homem em assumir a paternidade.

Precisamos falar da figura paterna. Freud, criador da psicanálise, gostava de dar ênfase a esta condição – se torna condição já que muitos escolhem se querem ou não ser pai, mesmo já sendo, por natureza. Ele dizia que esse papel estava ligado a questão de moralidade, do universo das leis, das regras e da proibição. Ou seja, educar. Os pedagogos, além de estudar conteúdos do currículo escolar, aprendem com diversos pensadores, filósofos e no dia a dia (principalmente) a importância da educação vinda dos pais. De como a presença de um pai é primordial para a formação pessoal da criança nos primeiros anos de vida. Se ela não existe, isso tem que ser suprido de outra maneira. É uma necessidade.

Freud que me perdoe, mas ele não se deu conta da figura empírica de família. Pais juntos, filhos sorrindo, cachorros correndo na grama, ficam somente nos comerciais. A realidade empírica é outra. A coragem em educar e se fazer presente não é para todos.

Gosto de pensar em como essas mulheres, que criam seus filhos sozinhas, são fortes. É triste, mas é necessário enxergá-las como “pães” – nome visto em muitas fotos postadas em redes sociais nos Dias dos Pais, quando filhos que, por algum motivo, não tiveram aquela figura de pai por perto.

O abandono paterno é uma realidade. Descobrir-se pai não se faz ser pai. Sumir e reaparecer anos depois também não é ser pai. Dar uma pensão mensalmente muito menos. Saber que sua parceira engravidou, mesmo ela também não querendo, torná-lo-ia pai. Mas para isso, a presença, essa sim, no seu sentido mais amplo, deveria ser realidade.

Gerar e criar são verbos, ou seja: ações. Precisa ser realizada, ser vivida. E como tudo que fazemos, precisa de doação. Ter um filho é se doar, deixar de ser somente você, e ser um pouco de tudo. Mãe e pai ao mesmo tempo? Que seja. O hiato entre esses substantivos para muitos é realidade, o abandono também.

Em tempos de discussão sobre aborto, quando o Estado decide se a mulher pode ou não abortar – mesmo ela já fazendo em condições precárias – precisamos discutir outros tabus sociais, como o aborto masculino, algo mais comum do que imaginamos.

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