PARE POR UM INSTANTE
E se pudéssemos olhar para a partida de alguém que amamos não apenas como um fim, mas como a continuidade de uma história? Talvez celebrar a vida seja também uma maneira de compreender a eternidade.
Recentemente, despedi-me de minha mãe. Ela viveu 101 belos anos.
Sua gratidão por uma vida plenamente vivida, a sensação de missão cumprida, de um ciclo que chegava naturalmente ao seu tempo. E, nesse momento, o sentimento que me acompanhou foi uma profunda serenidade.
Um amigo me falou sobre a passagem para a eternidade e a esperança de que, um dia, estaremos todos novamente juntos. Suas palavras trouxeram uma imagem bonita: quem parte pode seguir em paz, enquanto quem permanece continua celebrando a vida. Essa reflexão me aproximou de uma dimensão fascinante da tradição chinesa: a ancestralidade como continuidade.
Stephen Skinner, ao estudar o Feng Shui funerário, apresenta a relação tradicional entre a localização das sepulturas e os descendentes. Ole Bruun amplia essa compreensão ao investigar os rituais, a paisagem e os vínculos familiares que permanecem através das gerações. Nessa perspectiva, a sepultura não pertence apenas à história de quem partiu. Ela também participa da história de quem permanece.
No Feng Shui Clássico, distinguimos Yang Zhai, a morada dos vivos, de Yin Zhai, a morada dos mortos. Duas formas de habitar o território, ligadas por uma mesma continuidade familiar.
Como arquiteta, sempre compreendi que os espaços são muito mais do que suas paredes. São feitos de relações, memórias e experiências que continuam a nos transformar.
Talvez nós também sejamos assim. Uma mãe permanece em nossos gestos, nas palavras que repetimos, nos ensinamentos que transmitimos e no amor que aprendemos a oferecer. Percebo agora que o legado não é apenas aquilo que recebemos. É aquilo que fazemos florescer a partir do que recebemos.
Gosto de pensar que a vida não se resume à presença física e que os vínculos mais profundos encontram maneiras de continuar. Cada despedida tem seu próprio tempo. A minha me ensinou que um ciclo pode terminar em paz, sem que o amor termine com ele. E que seguir vivendo com alegria também é uma forma de honrar quem partiu.
PARA LEVAR COM VOCÊ
Uma mãe pode deixar de habitar nossa casa, mas continuar presente na arquitetura invisível de quem somos. Talvez o legado seja isso: a vida que recebemos, transformamos e fazemos florescer.
Porque o amor não precisa terminar onde começa a saudade.

Arquiteta aplicando o Feng Shui há 39 anos em seus projetos pelo Brasil. Formada pela UnB – Universidade de Brasília e com mais de 200 projetos de arquitetura, obras individuais e coletivas em São Paulo, Distrito Federal, Alagoas, Ceará, Rio Grande do Sul, etc…
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