Não estamos à venda.

2019, século XXI, e eu preciso te dizer uma coisa, eu não estou à venda. Meu corpo, minha personalidade, minha feminilidade, o simples fato de andar na rua, uma foto postada, meu batom vermelho, a cerveja na minha mão, estar sentada no metrô, distraída no ônibus, ou ao seu lado na mesa de trabalho, nada disso quer dizer que você pode me dar um preço, que você pode achar seja lá o que está achando. Apesar do ano em que vivemos, apesar de tanta coisa ter mudado, há ainda sim muitas questões, idealizações e pensamentos que necessitam mudar. Entre eles está a publicidade, parece mais um daqueles temas que você já está cansada(o) de ler sobre, algo que você pensa “lá vem alguém falar sobre isso mais uma vez”, aí eu te digo, vai ter sempre alguém para falar dessas coisas que “ninguém mais aguenta ouvir”, enquanto essas coisas não mudarem. E hoje, essa pessoa sou eu. Carol, 22 anos, estudante de publicidade e propaganda (olha que ironia), prazer (no sentido de estar feliz em te conhecer, cordialidade, e educação, antes que pense o contrário).

Hoje, vim falar sobre como é ser mulher e estudar e fazer parte de um sociedade, que infelizmente ainda pensa de um jeito machista, sim, há exceções, mas são poucas. Em um país em que a publicidade por anos se manteve em ascensão por meio da exploração de curvas, cores, biquínis, e frases sem graça alguma (mas que para a grande maioria pareciam normais e até mesmo geniais, o trocadilho perfeito!) mudar conceitos e pensamentos ainda é um grande desafio, constante e se posso ser sincera, cansativo, a ponto da gente chegar a pensar em fazer o mesmo de sempre, porque é receita, né? dá certo. é o que vende. Então deixa como tá, vamos fechar os olhos e fingir que nada mudou ou melhor, vamos andar para trás, vamos ajudar  a manter uma cultura que minimiza as mulheres e propagar discursos que reforçam hábitos dessa sociedade.

A exploração de sentimentos na publicidade é constante, mesmo que não seja explícita. Infelizmente ainda é comum ver peças publicitárias direcionadas ao homem, onde vemos uma relação de poder sobre o corpo, sobre a mulher, que implicitamente seria alcançado com o consumo de um específico produto ou serviço. Não é como se alguém chegasse e falasse: “se você comprar isso vai ter poder, vai fazer tudo o que sempre quis, seus desejos serão realizados, suas fantasias mais profundas, seu ego será preenchido, mesmo que de forma momentânea e você será mais homem”. Longe disso, mas há uma conexão realizada de forma que é gerada uma associação a tudo isso, usando a imagem da mulher totalmente à mercê da vontade e desejo do homem. Usamos então do desejo, como forma de atrair, o desejo que corresponde a uma falta. O desejo gera o prazer, algo de momento, algo insaciável, o desejo vende.

O mais triste ainda é ver publicidades direcionadas a mulheres, no qual também é reforçado esse discurso machista. Onde são reproduzidas cenas do cotidiano que deveriam ser extintas, repetindo esse comportamento e gerando muitas vezes a baixa autoestima, a competição, o “você não se encaixa e se quiser ser normal tem ser assim”, “porque  homens gostam assim” e “se você é uma mulher que se preza, e que se cuida, você tem que ter aquela pele perfeita, estrias? nem pensar!”

Mas, há ressalvas, podemos identificar tentativas de pensar fora da caixa, de levantar a bandeira da mudança, do empoderamento feminino. Sim, existem campanhas, que buscam alçar questões sobre como a mulher vem crescendo e mudando e se tornando cada vez mais forte, dona de si, dona da sua vontade, da sua liberdade. Mostrando que podemos escolher, podemos falar e o mais importante, podemos nos mostrar, sem vergonha, sem medo, mostrando o lado B, o das mulheres que levantam outras mulheres, mulheres que sabem como é difícil ser mulher, mas que isso pode ser gostoso, energizante e fortalecedor. Mas, acima estamos construindo e batalhando por uma publicidade que diga: Nós, mulheres, não estamos à venda. 

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